domingo, 26 de dezembro de 2010

Todas as almas são negras

A noite cai suavemente na cidade adulterada
A escuridão invade o reduto da esperança
Traz com ela odores de amargura
Lembrando que para sempre a dor perdura
Penetrando todas as fortalezas
Eliminando todas as certezas

Cinzas caiem perante o olhar da lua
E no chão frio depositam-se as chamas extintas
Uma leve brisa abraça a superfície espezinhada
Papeis amarrotados ensaiam a dança enfeitiçada
Pequenas misérias despertam para o ritual
Outros representam cenas de amor carnal

Almas calcinadas pelo ardor do anoitecer
Vagueiam pelas ruas despidas de luz
Ignoram o destino comum de todos nós
Espíritos sem nome e sem voz
Vivem de uma falsa esperança
Habitam nos sonhos perdidos de criança

Contemplo o cenário imenso de degradação
Relembrando as cicatrizes da minha devoção
Refugiado para sempre num mundo escondido
Sou apenas mais um ser perdido
Despertado pela benção de um afecto trocado
Adormecido pela maldição de um beijo gelado

Quem desperta agora da consciência esquecida?
Quem vive a morte dos seres perdidos?

[29/4/2002]

Outras palavras

Tento erguer ao alto os braços entorpecidos. Não consigo. Parece que há uma força que me puxa para baixo, mas essa força vem de mim. Sou eu. O meu único inimigo.

Às vezes vejo a morte como uma benção, que não tenho coragem de pedir.

O começo, o despertar... despertei para um vazio em mim, mas queria despertar para o infinito. O infinito não está ao meu alcance.
Tenho que me limitar a este mundo. Não sei se posso ser mais que todos, nem sei se posso estar contigo. Não sei se os dois podemos ser um.

Mas antes, no início... o que foi que aconteceu? Foi um despertar ou um adormecer? Mas não interessa. Só não percebo o que quero entender. Não percebo porque quero que alguém me compreenda, se ao mesmo tempo não admito que alguém me entenda. Sou um ser imperfeito, feito de contradições, cercado de ilusões.

E o futuro, que futuro? Mais uma interrogação.
Mais um poema por escrever, mais um sofrimento por sofrer, outra desilusão.

E tu, o que dizes? Deixa as palavras livres. Deixa as palavras soltas. Alimenta-me com o teu ser. Preciso de ti.

Inspiro oxigénio. Expiro veneno. Assim vivo. Não, não vivo. Sobrevivo. Quanto tempo mais vou sobreviver? Será que alguma vez vou viver? E o que é para ti viver? Diz-me, esclarece-me, ilumina-me. Sobrevive comigo a estes dias. Vive comigo as nossas noites. As noites...

Fora de contexto, bebo da escrita a seiva da existência, porque assim sei que existo.

Agora adormeço. Não consegui escrever o que queria. O meu ser não permitiu. O meu ser foi corrompido por tudo e todos. Até por ti. Mas não me importo, porque existo. Não sei se continuarei a questionar, a interrogar-me. Fui eu que existi? Mas não tinha não existido? É indiferente. Por favor, não sejas indiferente... sê diferente. Diz-me que existo.

[27/4/2002]

Seis razões...

...Para te amar

Desde que te conheci
Esqueci tudo o que já vivi

O teu olhar encanta-me
O teu sorriso deslumbra-me

Prendes-me a respiração
Quando apertas a minha mão

A tua voz hipnotiza-me
As tuas palavras fascinam-me

Será a minha missão conquistar o teu coração

...Para te odiar

Desde que te conheci
Esqueci tudo o que compreendi

O teu olhar domina-me
O teu sorriso perturba-me

Prendes-me a respiração
Quando te afastas e dizes não

A tua voz angustia-me
As tuas palavras atormentam-me

Será a minha missão queimar-te o coração

...Para te matar

Desde que te conheci
Perdi tudo o que vivi

O teu olhar sufoca-me
O teu sorriso desconsola-me

Cortaste-me a respiração
Quando me largaste a mão

A tua voz martiriza-me
As tuas palavras desesperam-me

Será a minha missão colocar-te num caixão

[25/4/2002]

Em mim

Então, como te sentes hoje?
Mais uma mensagem, não é?
Ora vamos lá ver o que não queres ver.

Agora são os risos que ouço
Que inspiram a assolação
E alimentam as palavras.

Serás obrigada a ouvires
Serás exposta a mim
E não me podes abandonar.
Não te liberto. És prisioneira.

Luta pela tua mísera vida
Em vão...

Luta até as forças te abandonarem.
Diz-me agora se valeu a pena?

A tua presença é um presságio de morte
Sei que nada será passageiro
O definitivo é agora imediato
E o que pensavas que nunca seria...
Agora já o é. Não podes fugir.

Vou cair, e vou-te arrastar
Vais morrer em mim.

[23/4/2002]

Portas desiguais

Se pelo menos eu soubesse que te amo...

Simples olhares. Simples sorrisos.
Simples palavras transformadas em pensamentos.
Os minutos contigo sempre pareciam segundos
Que se me escapavam como areia por entre os dedos.
Queria ler-te os pensamentos
Queria saber quem és, que emoções te perfazem
O que pensas de alguém como eu.
Será que queria? Queria mesmo enfrentar a tua realidade?
A tua realidade, sempre vaga e ausente para mim
Seria a realidade que construí em mim?
Não acredito em seres perfeitos.
Mas tenho medo de te descobrir.
De descobrir que a tua realidade não é a minha.
Em círculos de emoções
Enfrento lamentos de desdém
Feitos de lágrimas perdidas
Ilusões desfeitas
Noites em branco.
Penso em ti e penso neles.
Eles, todos os que te desejaram
Todos os que te beijaram
Todos os que te acariciaram
Mas será que te amaram?
Se pelo menos eu soubesse que te amaram
Se pelo menos eu soubesse que te amo...

...O teu mundo menos o meu

Todos os que fazem parte do teu mundo
Todos os que significam algo para ti...
...e que descreves com apreço...
Parece todo o mundo menos eu,
O teu mundo menos o meu.

Só eu

Sabias?
Sempre soubeste?
Ou não queres saber?
Ou finges não saber?
Tu sabes. Sabes se me olhares nos olhos.
Sabes?
Do mundo que vejo em ti?
Do mundo a que continuas fingir não pertencer.
Dos sonhos imaturos
Dos futuros que jamais serão passados.
Mas eu sei o que não pode ser.
Porquê? Porque sou eu.
Tu lembras-me daquilo que sou
E do que nunca poderei ser.
Do que nunca te poderei dar
Nunca te poderei ter...
Porque sou só eu.

Um amanhecer

Das horas que foram eternidades
Lembro agora as mágoas sem sentido
De um pensamento perdido
O elogio da insanidade é real
Com a chegada do amanhecer de sombras deformadas.
Longe.
Longe do meu dia está a tua noite.
Sonho perder-me na tua noite
Por ora divago como cego neste mundo sem visão
Esperando o dia em que me distingas dos vultos irreais.

A maior ameaça para um ser humano são as características que o distinguem dos outros seres: os seus pensamentos, e a capacidade de terminar a sua própria vida.

Antecipação de um verso extinto

Um sonho perdido
Um momento sofrido
Uma realidade esquecida
De uma eternidade sem vida.
Ouve.
Ouve bem.
Ouve o vento, ouve a chuva que cai lá fora
Sente os trovões que estremecem o meu ser
Agora são apenas os clarões dos relâmpagos
Que me alimentam o espírito.
Haverá uma razão para tudo isto?
Para os pensamentos irracionais que habitam em mim?
Qual das razões?
Desde o momento em que quis abrir as portas da percepção
Que não consegui voltar atrás.
A porta fechou-se atrás de mim.
Agora residem memórias de traços de vida
Trechos de banalidade rejeitada
Este verso já não sou eu.

Só porque estás aí

Porque estás aí
E estás comigo sem que eu saiba
Penso que me arrependo
Sem me arrepender se às vezes penso.
Estás aí. Afinal estás aí.
E não mais quero saber se não te importas com as palavras
Porque afinal estás aí.
E não quero saber mais, não quero esperar mais.
Estas aí.
As palavras nada sabem.
Nós também nada sabemos.
Vamos ver o que ainda não está escrito.
Afinal a porta está aberta
Vamos escrever o que falta até morrer
E é apenas porque estás aí
Que quero continuar a viver.


[14/3/2002]

Mensagem de outrora

Em breves momentos de vida
Como se fossem eternidades de evidências
Persegui mensagens de revelações
Como se existisse uma mensagem de agora

Nunca será agora
As mensagens serão sempre de outrora
Num qualquer rasgo de consciência
Ou em sussurros de insanidade

Linhas sem sentido
Vazias de significado para ti
Continuam em mim

Um último conselho:
Nunca acredites em quem és
Porque tu não és quem és.
Agora não mais te posso dizer
O que tens de pensar.
Não penses nem acredites
E não acredites que pensas.
Só os momentos sabem o que eu sei que és.
O que fica por dizer seria para outrora.

[12/3/2002]

Rendição

Nunca acabaste a tua frase de conveniência
Nunca me iluminaste com essa evidência

Poucas palavras me fariam ser
Alguns sussurros me fariam viver

Dois ou três punhados de terra
Serão suficientes para acabar a nossa guerra

Parabéns, esta é a tua vitória
Goza bem esse privilégio, essa glória

Mas por mais voltas que dês
Acabará por chegar a tua vês

A tua e a de todos nesta festa
O que sobra do mundo que resta

Como parece frágil esta realidade
De seres obcecados com a normalidade

[8/3/2002]

Os meus Demónios

Anoitece.
O manto negro abraça-nos a todos
O feitiço da lua dá o toque final
A noite toma conta de mim

Agora sei que o caminho está traçado
Mais uma vez percorro essa estrada
Noite após noite
O destino é o mesmo

É o encontro comigo
É o encontro com os meus demónios
Que saem de mim atraídos pela noite
Atraídos pela fraqueza do meu ser

Agora que estou só
Tenho em mim a única companhia
E neles os espectadores perversos
Espreitando a minha auto-destruição

Eles estão perto
Consigo senti-los
Consigo tocá-los
Consigo adorá-los

Um quarto de noite passada
Segundos transformados em sonhos
Minutos em realidades
Horas em desesperos

Confundo ilusões e realidades
Vivo pesadelos que nunca sonhei
Espero que o tempo passe
E que a vida me deixe morrer

Agora a madrugada aproxima-se
Como mais uma ilusão real
Eles desaparecem, mas não se vão embora
Apenas se escondem em mim, aguardando

Aguardam, anseiam pelo confronto
Esperam o contacto com o falso mundo
Para então libertarem a sua raiva
Para proclamarem a minha desgraça

Sou eu, sou só eu
Apenas eu, e também eles
E porque eu nunca o fui
Eles sempre o serão

[26/2/2002]

Lágrimas ao chão

Nesta noite enfeitiçada
O ar enche-se de solidão
E o único som que se ouve
É o das tuas lágrimas, caindo no chão

Choras lágrimas de tristeza
De mágoa e de dor
Por quem choras, eu não sei
Mas sei que é por amor

Esta dúvida persegue-me
E assalta-me o coração
Será por mim o teu choro?
Serei eu a tua paixão?

Na ingenuidade de um gesto
Tornámos um beijo numa despedida
Mas não serão os teus lábios
A acabar com a minha vida

Não tenho mais ilusões
Nesta minha existência vazia
Tenho apenas o desejo
De te amar um dia

E se hoje choras por mim
Não fazes ideia do que senti
Quando me disseste adeus
E então chorei por ti

A noite em que o sol beijou a lua

Lembro-me de uma noite fria
Em que esperava que o telefone tocasse
Esperava que tu me ligasses
Eras tu quem eu mais queria

Aconteceu nessa noite
Em que o sol beijou a lua

Os minutos passavam
E eu desesperava
A música já nada me dizia
Eras tu quem eu precisava

Sim, foi nessa noite
Que o sol beijou a lua

Acabei por adormecer
A pensar em ti, meu amor
Sonhei contigo toda a noite
Sonhei até ao amanhecer

Acordei dos meus ternos sonhos
Sussurrei o teu nome
Lembrei-me de ti e chorei
Porque nunca me ligaste

Fui à janela, olhei para o sol
Mas o seu brilho não era o mesmo
Sim, agora lembro-me, agora sei
Porque é que nunca me ligaste

O sangue nas minhas roupas,
O espelho partido no meu carro
Recordam-me a noite de ontem
Em que te libertei desta vida

Lembro-me vagamente
Das lágrimas no teu rosto
Antes de fechares os olhos
E partires para sempre

Não te queria bater com força
O álcool não me ajudou
Chamei por ti vezes sem conta
Mas não mais acordaste

Sim, agora sei que nessa noite
O sol aproximou-se da lua
E num gesto de loucura
Beijou-a e escondeu-a


Hoje não haverá luar
Tudo será escuridão

Porque foi ontem à noite
Que o sol beijou a lua

E todo o meu amor
Não te pode trazer de volta
A este mundo, tão sombrio
Desde que partiste

Tão sombrio, sem luar
Todo o brilho pertence ao sol
Porque já não há lua
Para reflectir a sua luz

É assim desde essa noite
Em que o sol beijou a lua

Pergunta-me o que quiseres

Estou aqui, pergunta-me o que quiseres
Só não me faças perguntas
Para as quais não queres ouvir a resposta

Perguntas-me se serei sincero
Digo-te que a minha sinceridade
Será tanta quanto a tua beleza

Perguntas-me se te acho bonita
Digo-te que a tua beleza
É proporcional à minha solidão

Perguntas-me se quero estar contigo
Digo-te que a vontade de estar a teu lado
Só é comparável ao meu amor

Perguntas-me se te amo
Eu disse-te para não fazeres perguntas
Para as quais não queres ouvir a resposta

Aviso

Cuidado com o que dizes
Podes-te arrepender
Cuidado com o caminho que escolhes
Não podes voltar para traz
Cuidado com o que fazes
Não podes desfazer

Cuidado contigo
Pensa duas vezes
Antes de pensares a terceira
Antes de caíres por terra
Vendo todos a afastarem-se
E ficares só e abandonada

Cuidado, não deixes que isso aconteça
Porque aí não tens escolha
Só me terás a mim para te dar a mão
Para te levantar do chão
Secar-te as lágrimas
E limpar-te o rosto

Por isso tem cuidado
Para não caíres em mim
Para decidires o teu destino
Sem que eu faça parte dele

Sei onde escondes o teu coração

Deixa-me sentar ao pé de ti
Não baixes a cabeça, olha para mim
Olha-me nos olhos e diz-me o que vês
Diz-me para que eu saiba
Talvez assim eu me compreenda
Talvez assim eu te compreenda

O silêncio fala por nós
Diz-nos tudo o que precisamos saber

Os minutos passam
Os nossos olhos não se afastam
És o meu espelho
O reflexo da minha alma
A minha imagem nos teus olhos
É o esboço dos meus sonhos

Levantas-te e afastas-te
Olhas para trás e sorris

Agora as lágrimas acompanham-me
Enquanto tomo outro rumo
A mesma direcção, outro sentido
Leva-me sempre ao mesmo sítio
Leva-me sempre até esse lugar
Onde escondes o teu coração

Eternidade agora

Queres que esqueça o que lembro de ti?
Não consigo
Queres esquecer que eu me lembro de ti?
Não podes

Mas mais ninguém precisa de saber
Fica só entre nós
È o nosso pequeno segredo

Não te preocupes
Eu estou distante
De ti não quero nada

Se pudesse esquecia-te
Nem que fosse por um minuto
E um minuto a seguir
E uma vida depois
E uma morte então
                  E uma eternidade agora

Para sempre

Vem comigo
Dá-me a tua mão
Não tenhas medo
Não olhes para trás
Não deixamos nada
Deixamos tudo

Não chores
Vamos ficar juntos
Para sempre
Eternamente
Dá-me um sorriso
E eu dou-te o mundo

Não este mundo
Outro mundo
Um mundo de felicidade
Para nós e mais ninguém
Não perfeito, mas com esperança
Não real, mas sem ilusões

Por isso vem comigo
É a última hipótese
Fecha os olhos
Não te arrependerás
É agora ou nunca
                  É para sempre

Tu e Eu

Nem passado nem futuro
As nossas vidas nunca se tocaram
As nossas mortes não se cruzarão
Tu encontras a luz
Eu perco-me na escuridão

Ao caminhar nas trevas
Recordo o que nunca fui
Guardo o que nunca me deste
Anseio o que nunca será

Nem que morra mil vidas
Nem que viva mil mortes
Não me esqueço de ti

Estás gravada na minha memória
                  Estás dentro do meu coração